sábado, 30 de julho de 2011

O que realmente é Teologia Liberal?

Existem alguns termos que por causa de seu uso constante se tornam corriqueiros, e em muitos casos por causa disso perdem o seu sentido originário, tal é o caso quando falamos de teologia liberal.
Tem sido uma espécie de “coqueluche”. No meio acadêmico, mas não somente nele, nas igrejas, nas revistas de escola bíblica, em livros evangélicos populares, em conversas em geral, nas discussões em redes sociais e até em conversas de boteco, o termo “teologia liberal” tem sido pródigo, e sai com uma facilidade de nossas bocas como uma fonte transbordante ou uma chave que “abre” a compreensão para tudo aquilo que não é ortodoxia. Enfim, seu significado fundamental nesses contextos é de heresia, mesmo quem se diz teólogo liberal hoje, não tem problema nenhum em ser chamado de “herege”. Aliás, o que em muitos casos se tornou um elogio, em outros simplesmente quer dizer que a pessoa apenas não concorda com os costumes de uma igreja, a forma de anuncio, do conceito ou a forma como alguns dogmas são interpretados.
Mas o que realmente quero dizer por teologia liberal? Qual era o contexto onde o conceito nasceu? Quem o usou pela primeira vez e em que sentido? É um conceito teorético ou historiográfico? Estas são apenas algumas indagações que nos conduzirão ao entendimento do que realmente possa ser teologia liberal e se seu uso ainda pode ser aplicado hoje. Se pode em que sentido?
Em nossa breve reflexão trabalharemos a teologia liberal nas duas formas em que pode ser entendida. Como conceito teorético, e nesse caso ainda podemos falar em teologia liberal ou teólogos liberais hoje, e como categoria historiográfica, nesse caso, veremos que foi um movimento restrito à determinada época histórica com seus conceitos básicos fixados e pertencentes à determinados à um tempo definido. As outras três perguntas: “Mas o que realmente quero dizer por teologia liberal? Qual era o contexto onde o conceito nasceu? Quem o usou pela primeira vez e em que sentido?” serão respondidas de acordo com a análise das categorias teorética e historiográfica.
O termo liberalis teologia[1] encontra-se pela primeira vez no teólogo de Halle, Johann Salomo Semler (1725-1791). Com o termo ele queria designar um livre método de investigação histórico-crítica das fontes da fé e da teologia, que não se sentisse vinculado aos dados posteriores da tradição dogmática.
Nesta definição de Semler encontramos vários elementos que esclarecem em sua base a teologia liberal, mas desejo analisa-los em dois momentos. Vejamos:
Em primeiro lugar essa teologia busca uma liberdade metodológica. Nossa atenção deve se voltar a este fato. A liberdade aqui não significa sair por aí fazendo afirmações quaisquer que venham à cabeça sobre a dogmática. A liberdade é na formulação de um novo método, mesmo o método não é livre em absoluto, pois do contrário não seria método, o que se busca, portanto, é uma libertação do método usado pelos seus antecessores de lhe dar com as fontes da teologia cristã, as Escrituras. Qual seria esse método “opressor”? O dogmático que se valeria da reflexão sistemática e filosófica? No pensar de Semler esse método seria inapropriado para lidar com as Escrituras, não captam a essência e a estrutura das Escrituras, e isso nos leva ao segundo ponto que deve ser notado, o método histórico-crítico que seria o que dá mais liberdade ao investigador para compreender o que em seu entender seriam as fontes da fé a da teologia cristã.
Em relação ao contexto, a teologia liberal nasce do encontro do liberalismo – como autoconsciência da burguesia européia do século XIX – com a teologia protestante. Seus antecedentes históricos se encontram na filosofia da religião de Hegel e na teologia de Schleimacher. “Não é uma escola bem-definida, mas um movimento polimorfo, no qual se podem distinguir diferentes linhas de pensamento” (GIBELLINI, 2002, p. 19).
Entre essas linhas é fundamental a interpretação racionalista do Novo Testamento com Baur, Strauss e Bauer na primeira metade do século XIX. Também foi chamada de teologia liberal a reflexão de Ritschl (1822-1889) e de sua escola, que inclui tanto teólogos sistemáticos como Herrmann, estudiosos do Antigo Testamento como Wellhausen e do Novo como Jülicher, bem como historiadores como Harnack e filósofos da religião como Troeltsch. O órgão de divulgação do grupo era a Revista Christliche Welt (fundada em Berlim em 1877). Essa revista “se propunha encarar os novos problemas do mundo e da sociedade numa perspectiva evangélica e servir de intermediário entre o mundo dos eruditos e os resultados da investigação de uma teologia que se queria crítica” (GIBELLINI, 2002, p. 19). Esse propósito não é novo, os pais da Igreja bem como muitos teólogos em todas as épocas buscaram se fazer entender ao mundo intelectual e erudito de sua época. A diferença entre a teologia liberal e as outras não está centralmente em suas intenções, mas em algumas características gerais que listamos abaixo:
1ª. Assunção rigorosa do método histórico-crítico.
2ª. Relativização da tradição dogmática da Igreja, principalmente a cristologia.
3ª. Leitura predominantemente ética do cristianismo. O otimismo liberal procurava harmonizar o mais possível a religião cristã com a consciência cultural da época.
Para mim o ponto central que diferencia a teologia liberal de outras teologias seria a relativização da dogmática da Igreja bem como da cristologia e a ascensão do método histórico crítico. Esses dois pontos são fundamentais como reviravolta da teologia, já que os dois se baseiam numa postura de crítica livre às Escrituras e rejeição do patrimônio dogmático que seria posterior às Escrituras e estaria baseado num errôneo método de interpretação das Escrituras, em consequência, não teríamos um verdadeiro entendimento do que seria o cristianismo primitivo e a mensagem da Bíblia. No ver de autores como Harnack em A essência do cristianismo, o método dogmático que leva em consideração as categorias filosóficas gregas inseriu um novo conteúdo à mensagem evangélica que lhe era estranho. A relativização da cristologia por sua vez não significava desprezar à Cristo, pelo contrário a alta estima acerca da figura histórica de Jesus conduziu os teólogos ao método crítico de leitura das Escrituras e percebeu que os conteúdos dogmáticos posteriores à Jesus sobre ele não tinham nada a ver com o que realmente os evangelhos mostravam e diziam sobre Jesus e que este pensava de si mesmo. Entretanto, não podemos superestimar o método histórico-crítico e nem o alcance da teologia liberal. Em outro artigo poderemos analisar os pontos fracos da teologia liberal.
Isso é história, na história essa teologia tinha suas posições muito bem definidas, eram baseadas no otimismo em relação à humanidade. Como categoria teorética, podemos extrair algumas idéias teóricas que não estão ligadas necessariamente ao ambiente histórico em que foram fomentadas e, podemos dizer que toda a tentativa teológica que em nome do método histórico crítico e de seus resultados, exige uma revisão dogmática ou relativização da cristologia pode ser entendida como teologia liberal.
Portanto, como categoria historiográfica, não temos mais hoje algo como a teologia liberal. Como movimento histórico ela finda com o final da primeira guerra mundial quando o otimismo liberal de um homem técnica e eticamente bom dá lugar ao pessimismo para com a humanidade. Com o fim da guerra novos modelos de pensamento vão emergir tais como o existencialismo de Heidegger e Sartre, e teólogos como Barth e Bultmann irão produzir uma teologia que leve em consideração a dimensão existencial do homem e irão enfatizar a insuficiência e até mesmo total alienação humana, mas isso é um tema para outra ocasião.


BIBLIOGRAFIA

GIBELLINI, Rosino. A teologia do século XX. 2ª. Edição. Tradução de João Paixão Netto. São Paulo: Loyola, 2002.


[1] O termo é latino, sua tradução é simplesmente teologia liberal.

1 comentários:

Unknown disse...

A partir do então método histórico-crítico, fora possível depurar das Escrituras aquilo que as "categorias filosóficas gregas" teriam "inserido" na mensagem evangélica?

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