INTRODUÇÃO
O objetivo de nosso trabalho é analisar a crítica[1] que Sartre faz à Husserl[2]em sua obra A Transcendência do Ego. Ele visa principalmente a obra Idéias I de Husserl, onde o fenomenólogo alemão teria abandonado a boa fenomenologia, e colocado o Eu mesmo após a redução fenomenológica. Em particular nos deteremos no parágrafo 57 de Idéias I onde achamos que melhor Husserl explicita o eu puro visado por Sartre.
Procederemos a exposição comentando as partes A e B da parte I de A Transcendência do Ego, e enquanto o texto é comentado veremos qual é o posicionamento de Husserl em Idéias que é criticado por Sartre. Portanto, nosso método é o de contrapor os ambos os textos partindo do texto crítico (o de Sartre) para o criticado (o de Husserl).
CRÍTICA DE SARTRE AO EU TRANSCENDENTAL COMO CONCEBIDO POR HUSSERL
Sartre de saída expõe o seu objetivo na obra que é mostrar que o ego não está nem formal[3] nem materialmente na consciência, mas está como um ser lá fora no mundo é um ser do mundo, como o Ego do outro. Mas o que é este ego do outro, este ser no mundo? Nosso trabalho não chegará nesse ponto, mas certamente ficará estabelecido que para Sartre o ego é passível de ser analisado, mas não como um puro transcendental, mas como um elemento fenomênico dado a consciência mas que não possui uma realidade substancial.
Começando com o ponto de vista kantiano que afirma que apesar do eu penso ser necessário como um acompanhamento das nossas representações, para Sartre isso não significa que um eu de fato habite a consciência. Para o filósofo francês, a base do eu penso kantiano era apenas uma condição (fixar isso, o condicional) que possibilitava considerar a minha percepção e meu pensamento como meus. Ao interpretar Kant, Sartre postula que o filósofo de Königsberger ao dizer que “o eu penso deve poder acompanhar...”, considerava que o “deve” estaria simplesmente indicando que poderiam existir momentos da consciência sem “eu”. Além disso, pensar num eu habitante da consciência a partir de um condicional de possibilidade seria passar de uma questão de direito para uma de fato. Sartre coloca isso magistralmente ao dizer “O Eu Penso deve poder acompanhar todas as nossas representações, mas ele as acompanha de fato?” (T.E., I, A, p. 184).
Abandonando as interpretações[4] que os neokantianos deram ao problema do “Eu penso”, Sartre passa às considerações de Husserl. Para Sartre, somente a fenomenologia estaria em condições de resolver o problema do eu de fato. Por quê?
Em primeiro lugar, a fenomenologia seria um estudo científico, logo, não somente uma análise crítica da consciência. Se eu passo da crítica kantiana para a cientificidade certamente tenho um ganho considerável, saio do terreno da probabilidade, da especulação para o da certeza, do fato. Mas isso não basta, não basta dizer que a fenomenologia é uma ciência, tenho que prová-lo. Sartre o faz ao descrever a base do método fenomenológico, a intuição. É pela intuição que Husserl fenomenólogo nos põe diretamente na presença da coisa, não de postulados sobre a coisa que se dá, mas a coisa em si, o fato. Mas como chegar ao Eu de fato?
A epoché, ou seja, da redução fenomenológica, seria o método que nos conduziria ou não ao Eu Puro. Husserl não encontra mais simplesmente a consciência como um conjunto de condições lógicas como no caso de Kant, mas chega à esta consciência de fato. O que resta, portanto, por meio da “redução” é uma consciência no mundo, uma consciência constituinte, esta consciência aparece como um “eu” psicofísico, é neste ganho fenomenológico de Husserl que Sartre se apoiará para criticar o próprio Husserl.
Esta consciência não é de maneira nenhuma um Eu puro (transcendental) que seja estrutura da consciência. Há uma diferença colossal entre um eu que não é de maneira nenhuma um eu puro e sim uma produção sintética e transcendente da consciência para um eu em si, um eu puro que abarque esta consciência, que esteja por detrás dela como sua estrutura. Esse segundo posicionamento de Husserl que é posterior ao das Investigações Lógicas e que se encontra em Idéias é que Sartre irá contestar.
A fenomenologia para Sartre não tem necessidade de recorrer a um eu unificador e individualizante para produzir a interioridade da consciência que se vê como consciência individual em relação a outras consciências que se veriam individualmente por causa de seus “eus”. Pela redução o que tenho é a consciência e não um eu, isso sim é fato! Disto resulta que os objetos que se dão à consciência são transcendentais, ou seja, existem em si independentes das consciências, sendo assim, são a consciências que são unas por meio do objeto, mas elas são consciências e não algum eu, nada mais que consciências. O Eu é inútil quando sabemos que é a consciência que se unifica e que a individualidade da consciência provém da natureza da consciência, é a consciência que toma para si o papel unificante e individualizante de um Eu que não existe e que é inútil.
A consciência vai tomar consciência de si ao entrar em contato com o objeto transcendente, nesse ato ela toma consciência de ser consciência desse objeto. Sartre afirma que “esta é a lei de sua existência” (T.E., I, A, p. 188), aqui ela apenas consciência se ser consciência de seu objeto que está fora dela, mas ela neste primeiro ato ainda não é consciência refletida. O eu então aqui não é objeto já que ele teria que ser interior por hipótese, ele não poderia estar fora da consciência, o que está fora da consciência aqui não é o eu e sim o objeto. Se o eu fosse posto ele seria opacidade fechado em si e impediria a definição da consciência como um não substancial que ao tomar consciência de si é plena translucidez, abertura para o transcendental. A imagem de uma opacidade sugere a substancialidade do eu, enquanto a translucidez da consciência sugere a sua dimensionalidade, sua abertura.
Para Sartre, Husserl ao postular o eu puro eleva este à ordem de mônada. A consciência, sendo consciência do eu torna-se pesada, opaca, mensurável, substancial. Perdem-se assim, para Sartre todas as conquistas da redução fenomenológica. O máximo que se pode obter por meio da fenomenologia é um existente relativo, ou seja, um objeto para a consciência, jamais um eu puro.
O cogito kantiano é condição de possibilidade, enquanto o Cogito de Descartes e Husserl é uma constatação de fato (p. 190), o próprio Husserl diz que “na reflexão, toda cogitatio efetuada assume a forma explicita de cogito. Será que ele perde essa forma, quando praticamos a redução transcendental?” (HUSSERL, 2006, p. 132)[5]. A resposta é não. Mas a pergunta de Sartre que se põe é: onde aparece o eu quando apreendemos o nosso pensamento, esse fenômeno de onde “surge” o eu seria o que garantiria de fato uma afirmação que era somente de direito em Kant. Sim, Husserl passa do direito ao fato “Toda cogitatio ao menos em principio, pode variar, vir e ir... O eu puro, em contrapartida, parece ser algo necessário por principio e, enquanto absolutamente idêntico em toda mudança real ou possível dos vividos” (HUSSERL, 2006, p. 132), e termina acrescentando “na linguagem kantiana:‘O ‘eu penso’ tem poder de acompanhar todas as minhas representações’” (idem). Mas as coisas se dão realmente assim?
Para questionar esta postura, Sartre começa analisando o Cogito em sua profundidade, Husserl também o fez em sua obra, aqui a contraposição fica clara. A consciência que está refletindo precisa de uma consciência reflexiva. No ato de reflexão a consciência tem consciência de ela, consciência, ser reflexiva. Sartre afirma que no caso do Cogito a consciência não toma ela própria, por quê? Porque a única coisa que a consciência que está refletindo põe é o ato de reflexão e não a si mesma, ou seja, a consciência que reflete o ato de reflexão. Portanto, não existiria uma consciência que se reconhece como eu no ato da reflexão, o Cogito cartesiano e... husserliano está descartado.
Não há eu na consciência irrefletida tb. Sartre se vale da descrição de um fato da consciência irrefletida para mostrar que os dados desta não se opõem ao da consciência refletida, nos dois casos haveria o eu se tomássemos como certo ocogito, pois na consciência irrefletida, ao recuperá-la pela memória eu poria nela um eu. Nos dois casos a natureza do eu é duvidosa, pois a natureza da reflexão será sempre presente e modifica segundo o próprio Husserl a consciência espontânea. Não há eu no plano irrefletido.
Para nós, a pergunta fundamental de Sartre é posta a partir dos ganhos fenomenológicos obtidos até agora: “o ato reflexivo apreende com o mesmo grau e da mesma maneira o Eu e a consciência pensante?” (T.E., I, B, p. 194). Pergunta que colocando a possibilidade de um Eu, se ele existe ele é apreendido no mesmo grau e modo da consciência que pensa?
Eis o que diz Sartre sobre isso: “O Eu não se dá como um momento concreto, uma estrutura perecível de minha consciência atual. Ele afirma, ao contrário, sua permanência para além dessa consciência e de todas as consciências” (idem). É exatamente o que diz Husserl com outras palavras:
“depois que executamos essa redução, não encontramos o eu puro em parte alguma do fluxo de diversos vividos que resta como resíduo transcendental, nem como um vivido entre outros, nem como parte própria de um vivido, nem surgindo e desaparecendo com o vivido de que ele seria parte. O eu parece estar ali de maneira constante[6]e até necessária” (2006, p. 232).
Sartre completa dizendo que este tipo de existência é mais próxima do modo de existência das verdades eternas do que da consciência.
Em seguida, numa esclarecedora análise, Sartre mostra que existe uma diferença fundamental entre o Eu e o penso. Descartes passou do penso (o cogito) que se refere ao estado de consciência pensante para o de Substância pensante (o Eu, o Ego sum). Para Sartre Husserl merece a mesma censura que Descartes já que ele (Husserl) reconhece no Eu uma transcendência especial que não é a do objeto, já quer todo objeto que cai sob o pensamento, sob a consciência pensante é transcendente. Eis aqui a questão em toda a sua crueza, o fato de Sartre compreender esta consideração de Husserl, somente indica que este último se deixou levar pela já antiga postura de colocar o ser pensante humano como algo superior de alguma forma ao objeto[7], identificar a consciência do ato reflexivo como Eu. É com razão que Sartre se questiona: “como explicar o tratamento privilegiado do Eu se não graças a preocupações metafísicas ou críticas que nada têm a ver com a fenomenologia?” (T.E., I, B, p. 194). Eis, portanto, o fato, Husserl se afasta da fenomenologia e volta-se para a metafísica clássica e o criticismo kantiano. O Eu é posto aí mesmo que a fenomenologia não o ponha, o que ela põe é simplesmente o fenômeno. O Eu como transcendência, como aquilo que escapa ao fenômeno dado aí deve cair sobre a epoché, se cai sobre a redução fenomenológica o Eu não resiste. O Eu consequentemente deve ser posto como um transcendente.
Na reflexão o Eu não aparece como consciência refletindo, mas por meio dela em seu ato de reflexão. Para Sartre, quando dizemos Eu ao estarmos no cogito dizemos muito mais do que sabemos já que o Eu seria uma realidade opaca que necessita de mais desdobramentos. Outro problema é que ele se manifesta como fonte de consciência quando na verdade somente a consciência pode ser fonte da consciência. Agora, coloquemos a hipótese de o eu fazer parte da consciência, nesse caso haveriam dois “eu”, o da consciência que está pensando e o da consciência pensada.
Portanto, na conclusão que Sartre faz da parte B, ele conclui que ao analisarmos fenomenologicamente o eu, vamos concluir que ele certamente é um transcendental, mas que no cogito é tomado por detrás da consciência reflexiva, está é uma atitude inadequada à fenomenologia já que o Eu tomado desta forma nunca será conhecido fenomenologicamente, o que, aliás, não pode se dá já que o que conheço é apenas a consciência reflexiva. A conclusão geral nas palavras de Sartre é a seguinte:
“O Eu transcendente deve cair sob o golpe da redução fenomenológica. O Cogito afirma demais. O conteúdo certo do pseudo ‘Cogito’ não é ‘eu tenho consciência desta cadeira’, mas ‘há consciência desta cadeira’” (T.E., I, B, p. 196). O eu não pode ser posto de saída, o que temos de saída é a consciência.
BIBLIOGRAFIA
HUSSERL, Edmund. Idéias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica.2ª edição. Tradução: Márcio Suzuki. Aparecida:Idéias & Letras, 2006 (Coleção Subjetividade Contemporânea).
SARTRE, Jean-Paul. A transcedência do ego: esboço de uma descrição fenomenológica. Tradução Alexandre Carrasco. In Cadernos Espinosanos n° 22, pp. 183-228.
[1] Entenda-se o termo crítica no sentido mais vulgar de contraposição e não no sentido particular que Kant lhe concedeu como análise crítica da possibilidade, da origem, do valor e das leis do conhecimento humano. É bom ter em mente esta distinção já que ao longo do texto o termo crítica é aplicado nesse sentido quando o posicionamento de Kant está em questão.
[2] Em primeira instância, já que a crítica alcança Kant de algum modo. Entretanto para Sartre nem mesmo Kant põe o eu como o fez Husserl por meio do Cogito. Isso será analisado no decorrer do trabalho.
[3] Este será o posicionamento de Kant e de Husserl, a existência do Eu como estrutura formal da consciência.
[4] Que consistem em realizar as condições de possibilidade que pós Kant, Brochard, ao questionar o que seria a consciência transcendental, já coloca a questão de uma forma que a resposta seja o estabelecimento de uma consciência empírica que é um inconsciente. De qualquer forma percebe-se o estabelecimento de um Eu de fato.
[5] Não seguiremos aqui em nosso trabalho em particular o modelo de citação de filósofos clássicos para facilitar a leitura, além do que estamos trabalhando apenas um parágrafo, o 57, o que não precisaria ficar repetindo, nesse caso é melhor saber a página da tradução brasileira.
[6] Os negritos são meus.
[7] O que significa que ele não considera a consciência reflexiva como um objeto transcendente qualquer. O que está por trás dessa atitude de Husserl? Que necessidade ter que postular um eu e coloca-lo acima de qualquer outro objeto sendo que ele é um objeto passível de análise como qualquer outro?
06:24
Mizael Souza

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