sexta-feira, 29 de julho de 2011

A Lenda do garotinho

Conta-se uma lenda de um garotinho que queria muito ser um grande escritor, mas não era qualquer escritor, era daqueles grandes, bem grandes mesmo, ser famoso também valia. 
Grande parte dos seus amigos: próximos e familiares o aconselhavam a ter uma profissão decente: ou ser médico, advogado, engenheiro, coisa que valha, e principalmente que desse dinheiro. No entanto, êta garotinho chato e teimoso, não abandonava a idéia fixa de ser escritor, e quanto mais ele crescia, mais crescia a teimosia com ele. Em seus momentos solitários ele pensava: “pra que ter muito dinheiro? Porque as pessoas gostam tanto de dinheiro?” depois, mais crescido começou a refletir que dinheiro é bom, mas somente para lhe proporcionar as necessidades básicas, e já que vivemos nessa loucura pelo dinheiro às vezes temos que nos aliar ao inimigo. Mas bem, não queria falar das reflexões do garotinho sobre o dinheiro, e sim do da sua vontade de ser escritor, pois bem, continuemos... O garotinho cresceu, estudou muito, mas percebia que nunca chegava ao nível que desejava para ser um “grande” escritor, sempre percebia e sentia que muito faltava para esse nível, e mais, percebeu que o seu desejo de fama e eterna glória estavam muito distantes, a bem dizer, a distância de uma eternidade. Continuava estudando muito, pois não queria deixar que o sonho pelo qual lutou fosse por águas abaixo, seu coração era cheio de sentimentos e da sua mente disparavam muitas idéias que em vão procuravam a forma pura, como já dizia um tal de Antero de Quental. Mas, finalmente, como tudo nesse mundo tem começo e fim, o nosso garotinho cansou, viu os seus sonhos sendo jogados para longe, aliás, ele não seria o primeiro a ter sonhos lançados fora, os viu afundarem no profundo mar do nada, idéias que se dissolviam em buracos negros para nunca mais serem vistas foram juntas com eles. Portanto, abandonada a idéia de ser grande escritor, estava abandonada a sua existência, e melancolicamente o menininho morreu. Quando do seu velório, muitas pessoas choraram e se lamentaram pelo fato de que alguém que poderia ter dado certo na vida tivesse morrido tão cedo. Uns diziam: “É isso que dá sonhar tanto, sempre os sonhadores morrem! Quem quiser viver muito que não seja sonhador”. Enfim, foi feito o velório e todos foram tristes para as suas casas. Já no outro mundo, o garotinho começou a ver todas aquelas belezas que as pessoas lhe diziam quando ele ainda estava na terra. No entanto, aquelas eram belezas feias para ele: ruas de ouro, casas feitas de jaspe reluzente, água cristalina, pessoas com roupas resplandecentes e coroas cheias de pedras preciosas na cabeça, e por aí vai. Foi então quando ele começou a se perguntar se aquilo era realmente o céu, e começou a se angustiar pelo fato de ter que passar toda a eternidade naquele lugar horrível. Os dias foram se passando e o garotinho ia se entediando daquilo, o que ele tinha feito de tão mal pra merecer esse castigo? Seriam os seus sonhos de ser escritor? Tinha saudade das árvores de madeira que floriam e davam frutos que, primeiramente eram bem pequeninhos e depois iam crescendo, e de verde ficavam maduros, que eram comidos e até apodreciam, que encanto. Não agüentava mais olhar para aqueles frutos eternos, sempre do mesmo jeito, além do que, não tinha fome, e aquilo era uma das coisas mais terríveis daquele lugar, “há quando eu tinha fome” se lamentava a criança. A coisa era tão séria que chegou mesmo a ter saudade do transito da cidade grande. No entanto, num desses tediosos dias, o garotinho estava a contemplar um homem que brilhava ao longe, brilhava tanto que nosso amigo estava quase pra ficar cego de tanto brilho que emanava daquele homem sentado num grande trono. De repente, viu um ser alado com grandes asas que fazia seu passeio diário por ali, e resolveu chamá-lo: - Ei! Você não sabe se dá pra fugir daqui não? Benevolamente e com um sorriso no rosto o ser respondeu: - Há meu bondoso rapaz, é impossível! – deu uma pausa e prosseguiu – Mas o que há com você? Porque quer ir embora daqui? Muitas pessoas dariam a vida para estar num lugar desses, cheios de ruas de ouro e cristal, tudo aqui é coisa de primeira linha, tudo que um ser humano quer: pedras preciosas, casas de primeiríssima qualidade, tijolos de marfim, pias de esmeralda, e olhe só, até as ruas são de ouro, olhe bem e veja, você vai procurar por toda a eternidade e não vai encontrar nem um grão de areia e nem sujeira em canto algum. Ainda triste o menininho perguntou: - E aquele homem reluzente, sentado naquele trono reluzente, de rosto reluzente, aliás, tudo nele é reluzente. Você sabe quem é ele? - Mas o que é isso – assustou-se o ser transcendente – olhe o respeito – flamejou o ser de sorriso eterno – aquele é quem manda em tudo aqui. Mas você não sabia disso? - Não! - Mas porque essa pergunta agora? - Porque eu queria falar com ele, quem sabe ele não me deixaria sair? - Olhe meu garoto – sussurrou fleumaticamente o ser alado, se aproximando do menino com aquele sorriso tenebroso. Aqui faço uma observação, agora que o garotinho reparava melhor parecia até que aquilo sorriso era um castigo, o boca dele era algo parecido com a do Coringa do Batman. Mas o ser continuou sua fala – eu estou aqui por milhares e milhares de milênios e nunca nem consegui chegar perto dele. Porque você acha que conseguiria falar-lhe? - Não sei, é que eu só pensei... - Escuta – interrompeu o ser sorridente – aqui não se pode pensar, goze das riquezas desse lugar, seja feliz e pronto. - Mas eu não sou feliz, eu não estou feliz! – respondeu já meio desesperado o garotinho. - Mas não é possível! Aqui todos são felizes, você não percebe que todos estão rindo? Realmente, agora que ele observava melhor viu que todos riam, mas era um riso quase igual ao do ser alado que conversava com ele. Olhou bem nos olhos daquela coisa e percebeu que dentro dos seus glóbulos existiam gotas de sangue, o seu olhar era triste. Agora sim, entendeu porque o ser gritava com ele, seus olhos gritavam, não foi sua boca que gritou, mas sim sua alma. O garotinho não agüentou, começou a chorar. Então, viu que algumas lágrimas de sangue começavam a jorrar daquelas faces, começaram tímidas, mas logo caíram abundantemente, correndo pelas ruas de ouro que agora já estavam sujas formando um rio de sangue, sangue quente que tocava os seus pés, logo chegando aos seus joelhos. Em breve o sangue já estava afogando-o, e não via mais nada, estava morrendo novamente mais agora afogado, a respiração lhe faltou e naquela agonia final... Rapidamente abriu os olhos, estava na banheira, a água transbordava, mas a temperatura estava ideal. Percebeu que tinha dormido ali mesmo. Nada melhor que um banho morno para tirar o cansaço do dia. Saiu do banho, se enxugou, sentiu bem a espessura da toalha, olhou para o espelho, piscou para si mesmo e deu uma risada gostosa, escovou os dentes e quase comeu o creme dental. Do espelho olhou pela porta aberta de seu quarto uma parte de sua estante de livros. Viu também um caderno aberto e uma caneta ao lado, dirigiu-se vagarosamente ao quarto, sentou-se, era maravilhosa a sensação de estar sobre algo perecível, tocar aquela caneta, ver aqueles papeis. A janela estava aberta, a noite estava linda, olhou para fora, uma árvore balançava com a brisa. Sentiu o cheiro da terra molhada que subia ao seu nariz, fechou os olhos, tomou a caneta, esqueceu as formas eternas e partiu para a libertação das formas incompletas. Agora sim, o garotinho soube que estava prestes à crescer, longe da eternidade estava pronto para viver sua finitude. Bela e infinita finitude. 

1 comentários:

daniel d'moura disse...

Escrever é bom demais. Belo blog, belo texto...abrçs amigo!

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